Análise da Paisagem

Aula 18 — Exercício Aplicado: Interpretação Crítica de Indicadores
Curso de Geografia

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

2026-04-22

Visão Geral da Aula

Tópicos

  • 1 Revisão rápida: métricas da Aula 17
  • 2 Roteiro do exercício aplicado
  • 3 Cálculo de métricas no cenário-exemplo
  • 4 Interpretação crítica dos indicadores
  • 5 Implicações para funcionalidade e gestão
  • 6 Integração ao dossiê

Objetivo da Aula

Aplicar métricas e indicadores de paisagem a um cenário concreto (área de estudo ou caso fornecido), interpretar criticamente os resultados e discutir implicações para a funcionalidade ecológica e para a gestão territorial.

1 — REVISÃO: MÉTRICAS DA AULA 17

Métricas essenciais (resumo)

Métricas de composição

Métrica O que mede Unidade
PLAND % da paisagem ocupada por uma classe %
NP Número de manchas (patches) contagem
CA Área total da classe ha
LPI Proporção da maior mancha %

Métricas de configuração

Métrica O que mede Unidade
ED Densidade de bordas m/ha
SHAPE Complexidade da forma (1 = quadrado) adimensional
ENN Distância ao vizinho mais próximo m
COHESION Conectividade física %

Métricas de conectividade (Aula 17)

Métrica O que mede Fórmula
PC Probabilidade de conectividade \(PC = \frac{\sum_i \sum_j a_i \cdot a_j \cdot p_{ij}^*}{A_L^2}\)
IIC Índice integral de conectividade \(IIC = \frac{\sum_i \sum_j \frac{a_i \cdot a_j}{1+nl_{ij}}}{A_L^2}\)
dPC Importância relativa de cada mancha Variação de PC ao remover mancha

Recordando

  • Composiçãoo que existe? (quais classes, proporções)
  • Configuraçãocomo está arranjado? (forma, distribuição, conexão)
  • A mesma composição pode ter configurações diferentes → funcionalidades diferentes

2 — ROTEIRO DO EXERCÍCIO

Cenário aplicado

Descrição do cenário

Considere uma área de 5.000 ha no semiárido baiano com os seguintes dados:

Classe Área (ha) Manchas Maior mancha (ha)
Caatinga arbórea 600 12 180
Caatinga arbustiva 350 8 95
Pastagem 3.100 4 2.400
Solo exposto 200 15 45
Corpo d’água 50 3 30
Área urbana 100 1 100
Agricultura irrigada 600 5 200
Total 5.000

Dados complementares

  • Distância média entre fragmentos de caatinga: 850 m
  • Largura média da mata ciliar: 15 m (APP mínima = 30 m)
  • Perímetro total das manchas de caatinga: 42 km

O que fazer (individual ou dupla)

Parte A — Cálculo de métricas (20 min)

  1. Calcule PLAND, NP, LPI para cada classe
  2. Calcule a densidade de bordas (ED) da caatinga
  3. Determine o tamanho médio das manchas de caatinga

Parte B — Interpretação crítica (25 min)

  1. Interprete cada métrica: o que o valor indica?
  2. Compare classes: pastagem vs. caatinga
  3. Identifique vulnerabilidades e potencialidades

Parte C — Implicações para gestão (15 min)

  1. Que métricas sugerem fragmentação crítica?
  2. Que ações poderiam melhorar a conectividade?
  3. Quais manchas têm maior importância para conservação?

Parte D — Síntese escrita (20 min)

  1. Escreva 2 parágrafos articulando métricas → diagnóstico → recomendação

3 — CÁLCULO DE MÉTRICAS

Parte A: calculando os indicadores

PLAND — Proporção da paisagem

\[PLAND_i = \frac{CA_i}{A_{total}} \times 100\]

Classe CA (ha) PLAND (%)
Caatinga arbórea 600 12,0%
Caatinga arbustiva 350 7,0%
Pastagem 3.100 62,0%
Solo exposto 200 4,0%
Corpo d’água 50 1,0%
Área urbana 100 2,0%
Agricultura irrigada 600 12,0%

Vegetação nativa total: 12% + 7% = 19%

Abaixo do limiar de 30% (percolação) — paisagem com conectividade comprometida.

LPI — Proporção da maior mancha

\[LPI_i = \frac{max(a_j)}{A_{total}} \times 100\]

Classe Maior mancha (ha) LPI (%)
Caatinga arbórea 180 3,6%
Pastagem 2.400 48,0%
Agricultura irrigada 200 4,0%

Tamanho médio das manchas (MPS)

\[MPS_{caatinga} = \frac{600}{12} = 50 \text{ ha/mancha}\]

Densidade de bordas (ED)

\[ED_{caatinga} = \frac{42.000 \text{ m}}{5.000 \text{ ha}} = 8,4 \text{ m/ha}\]

ED alto + manchas pequenas = alto efeito de borda = vulnerabilidade dos fragmentos

4 — INTERPRETAÇÃO CRÍTICA

Parte B: o que os números dizem?

Diagnóstico por indicador

Indicador Valor Diagnóstico
PLAND (caatinga total) 19% ⚠️ Abaixo do limiar de percolação (30%)
NP (caatinga arbórea) 12 fragmentos ⚠️ Alta fragmentação
MPS (caatinga arbórea) 50 ha ⚠️ Manchas pequenas a médias
LPI (caatinga) 3,6% ⚠️ Maior mancha é pequena em relação à paisagem
LPI (pastagem) 48% Matriz de pastagem domina a paisagem
ED (caatinga) 8,4 m/ha ⚠️ Efeito de borda significativo
ENN (caatinga) 850 m ⚠️ Fragmentos distantes — baixa conectividade
Mata ciliar 15 m 🔴 Metade da APP mínima (30 m)

Síntese-diagnóstico

Paisagem dominada por pastagem (62%) com remanescentes de caatinga (19%) fragmentados em 20 manchas pequenas, isoladas (850 m distância média) e com alto efeito de borda. Conectividade funcional comprometida.

Perguntas para interpretação crítica

  1. O PLAND de 19% é preocupante?
    • Sim. Abaixo do limiar de percolação (~30%), a paisagem perde conexão entre fragmentos. Risco de extinção local de espécies.
  2. O LPI da pastagem (48%) indica o quê?
    • A pastagem é a matriz da paisagem. Uma mancha contínua de 2.400 ha domina quase metade da área. Alta permeabilidade para espécies de área aberta; barreira para espécies florestais.
  3. Os 12 fragmentos de caatinga arbórea são muitos ou poucos?
    • Depende do tamanho: 12 fragmentos com MPS = 50 ha → maioria pequena. Fragmentos < 50 ha sofrem forte efeito de borda (borda/interior ↑).
  4. A distância de 850 m é superável?
    • Depende da espécie. Para aves → talvez. Para mamíferos terrestres → provavelmente não sem corredores. Para plantas → dispersão comprometida.

5 — IMPLICAÇÕES PARA GESTÃO

Parte C: da métrica à ação

Prioridades de conservação

Prioridade Ação Métrica-justificativa
1 Proteger as duas maiores manchas (180 ha + 95 ha) LPI alto; núcleo-fonte de biodiversidade
2 Restaurar APPs (mata ciliar de 15 → 30 m) Conformidade legal; corredor potencial
3 Conectar fragmentos via corredores ripários ENN = 850 m; conectividade funcional baixa
4 Reduzir pressão nas bordas (pastejo, fogo) ED = 8,4 m/ha; efeito de borda
5 Monitorar solo exposto (200 ha em 15 manchas) Risco de erosão e degradação

Cenário “e se?”

  • Se restaurar 50 m de mata ciliar em todo o rio principal:
    • Conecta 4 dos 12 fragmentos → reduz ENN
    • Adiciona ~80 ha de vegetação nativa → PLAND de 19% → 20,6%
    • Custo estimado: R$ XXX/ha (referência regional)

Modelo de síntese para o dossiê

“A análise de métricas da paisagem revela uma configuração de alta fragmentação, com 19% de cobertura de caatinga distribuída em 20 manchas isoladas (ENN = 850 m), dominadas por uma matriz de pastagem extensiva (62%). O efeito de borda é significativo (ED = 8,4 m/ha) e a mata ciliar cobre apenas metade da faixa legalmente protegida.

Recomenda-se, como prioridade, a proteção das duas maiores manchas (180 e 95 ha), que funcionam como núcleos-fonte de biodiversidade, e a restauração da faixa ciliar ao longo do rio principal, que pode funcionar como corredor de conexão entre fragmentos. Essas ações contribuiriam para elevar o PLAND acima de 20% e reduzir o isolamento entre manchas, melhorando a conectividade funcional da paisagem.”

Entrega e integração ao dossiê

Entrega da Aula 18

  1. Tabela com métricas calculadas
  2. Interpretação crítica de cada indicador
  3. Identificação de vulnerabilidades e potenciais
  4. 2 parágrafos de síntese (métricas → diagnóstico → recomendação)

Formato: documento digital Prazo: até Aula 19 (29/04)

Próximas aulas

  • Aula 19 (29/04): Unidades de paisagem — delimitação e caracterização
  • Aula 20 (29/04): Diagnóstico integrado — pressões, conflitos, vulnerabilidades

Síntese da Aula 18

O que fizemos hoje

  1. Revisamos métricas — composição (PLAND, NP, LPI) e configuração (ED, ENN, SHAPE)
  2. Calculamos indicadores em cenário concreto — fórmulas aplicadas
  3. Interpretamos criticamente — valores, limiares, comparações
  4. Discutimos implicações — funcionalidade ecológica, serviços ecossistêmicos
  5. Propusemos ações — prioridades de conservação, restauração, monitoramento
  6. Redigimos síntese — articulação métricas → diagnóstico → recomendação

Obrigado!

Luiz Diego Vidal Santos

Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)

Análise da Paisagem — Aula 18